Na história do pensamento cristão, a fim de tentar explicar a Trindade, alguns teólogos apelaram para a composição tricotômica do homem (ao menos, aqueles pais da Igreja entendiam o homem como sendo tricotômico).
Valendo-se de fato de que o homem seria composto de espírito, alma e corpo, sendo, no entanto, um só ser, um só ente, aqueles pais diziam que Deus poderia se distinguir em Pai, Filho e Espírito Santo sem que sua unidade de essência fosse prejudicada.
Duas considerações são necessárias, porém:
1. A Bíblia não mostra o homem como um ser tricotômico, embora essa visão antropológica seja bastante popular. À luz da Escritura somente, é mais correto dizer que o homem é um ser dicotômico, i.e., constituído por um elemento material (corpo) e um elemento imaterial (espírito/alma - termos equivalentes).
2. Todas as tentativas de explicar a possibilidade de um Deus triúno a partir de analogias (como a analogia da tricotomia no homem) fracassaram. É claro que existem boas intenções por parte de quem investe em analogias: todos nós, ao pensar sobre a Trindade, gostaríamos de entender um pouco o fenômeno de três pessoas coexistirem como um só ser, uma só substância. Mas é preciso lembrar que qualquer tentativa de lançar luz sobre a natureza da Trindade será, na melhor das hipóteses, falha, incompleta e estará infinitamente aquém de uma explicação razoável.
O fato é que a Trindade não pode ser explicada. Nossos estudos sobre ela servem ao propósito de evitarmos equívocos, de mostrar-nos o que a Trindade não é, ao invés de nos mostrar o que ela é. A natureza triúna de Deus é algo que um ser humano jamais poderá entender e que nenhuma analogia, por mais elaborada e bem-intencionada, será capaz de explicar.