terça-feira, 4 de março de 2014

Dicotomia ou Tricotomia?

Quanto à constituição do ser humano, do ponto de vista teológico, as opiniões se dividem entre os dicotomistas e os tricotomistas.

Os dicotomistas acreditam que o homem é constituído por dois elementos, somente: o corpo e a alma/espírito (neste caso, espírito e alma são a mesma coisa; são dois nomes difrentes que se referem à mesma substância).Os que acreditam na dicotomia da constituição humana defendem seu ponto de vista dizendo que as Escrituras mencionam os termos "alma" e "espírito" um pelo outro, em permuta recíproca. Algumas vezes a Bíblia diz que, quando o homem morre, seu espírito sai de seu corpo, e outras vezes a Bíblia diz que é a alma que sai de seu corpo. Assim, ambos os termos se referem ao mesmo elemento. 

Além disso, não é porque existem dois termos diferentes que, necessariamente, alma e espírito são elementos diferentes. Muitas vezes, para enfatizar algo, nos valemos desse recurso figurativo (por exemplo, quando dizemos: "quero descansar essa 'lata velha', estamos nos referindo ao nosso corpo, porém, enfatizando nossa capacidade de sentir fadiga). No entanto, não significa que esses dois termos diferentes referem-se a dois elementos diferentes.

Por fim, o terceiro argumento que os dicotomistas usam para defender sua visão antropológica é o fato de que, na mentalidade judaica, não haviam dois elementos imateriais distintos (alma e espírito), mas um só elemento imaterial, que ora é chamado de alma e ora é chamado de espírito. A noção de que alma e espírito são elementos distintos veio da filosofia grega (do platonismo e, mas enfaticamente, do neoplatonismo) e não da Escritura.

Os tricotomistas, por sua vez, creem que o homem é constituído por três elementos completamente distintos: o corpo, a alma e o espírito. O principal argumento no qual se baseiam os tricotomistas para defenderem sua visão antropológica é o fato de 1Ts 5.23 e Hb 4.12 mencionarem, no mesmo versículo, as palavras "alma" e "espírito". Eles dizem que o fato de ambos os termos estarem presentes na mesma sentença indica que são elementos diferentes.

Entretanto, os dicotomistas contra-argumentam que o simples fato de ambos os termos estarem presentes no mesmo verso não indica que representam elementos distintos da mesma forma que o texto de Mt 22.37 não considera o "coração", a "alma" e o "entendimento" como três substâncias distintas. Ao contrário, o evangelista Mateus usou os três termos em seguida para provocar ênfase em sua declaração (este recurso é uma figura de retórica chamada epizeuxe).

Concluindo, na prática, não há muita diferença entre acreditar numa posição dicotomista ou tricotomista a respeito do homem, conquanto não se coloque uma hierarquia de importância nos elementos. Por exemplo, você pode até acreditar, se preferir, em uma tricotomia no ser humano. Mas seria um grande (enorme) erro acreditar que o espírito é mais valioso/importante que a alma, e que esta, por sua vez, é mais valiosa/importante que o corpo. Esta atribuição de hierarquia aos elementos conduz a graves erros na práxis cristã. 

Portanto, embora a posição dicotomista a respeito do homem seja realmente mais sóbria à luz da Escritura, não há mal algum em adotar a visão tricotomista caso você a enxergue como melhor (desde que respeite as condições supracitadas). Estude por si mesmo e decida qual das duas adotar.